Relatos

Ascensão em gelo no Vulcão Lanin - Argentina por Fábio Mendonça

Ascensão ao Vulcão Lanín

 

 

O Vulcão Lanín situa-se a 65 km de Junín de Los Andes, cidade pertencente à província de Neuquén, dentro do Parque Nacional Lanín, criado em 11 de maio de 1937.

Com uma altitude de 3776m em relação ao nível do mar, a subida do vulcão é feita em dois dias. A descida pode ser feita em um dia ou ser quebrada parando no refúgio (talvez um pouco menos cansativo).

Os guardas-parque exigem alguns equipamentos necessários e o uso de guia não é obrigatório (piolets, crampons, rádio VHF, roupa adequada, isolante, saco de dormir são obrigatórios). O registro deve ser feito na portaria, onde o material e a experiência serão checados.

Por não termos experiência em montanha de gelo, o grupo preferiu utilizar os serviços de uma família de guias (Bernardo, Sebastian e Geraldo Cabezon). O custo médio varia de R$250,00 a R$300,00 com alimentação, transporte e equipamentos.

Confesso que eu, a Tamara e o Eduardo ficamos meio ressabiados no início, pois o custo dos guias encerrou a nossa viagem e quando chegamos no início da trilha não houve nenhum guarda-parque checando nossos equipamentos.

Além de tudo, vendo o vulcão da base subestimamos a subida, achando que seria fácil. Sem guia, calculamos que o custo seria 70% do que gastamos.

 

 

Em cada dia sobe-se em torno de 1300m, o primeiro dia sobre a rocha vulcânica e o segundo sobre o gelo. A trilha é sinalizada até um pouco antes dos refúgios. A parte de gelo exige um pouco mais de experiência, os movimentos têm que ser mais sincronizados, usando piolets e bastões de esqui.

As gretas de gelo no caminho são alguns dos riscos que torna a subida do Lanín perigosa para os desavisados. As gretas são enormes fendas que se abrem às vezes com dezenas de metros de profundidade, se cair dentro a temperatura cai e pode-se morrer facilmente de hipotermia.

O primeiro dia é feito em 6 a 8 hs da base até o refúgio. A primeira parte da trilha começa dentro de um bosque, com uma vegetação que não estamos muito acostumados a ver.

Depois de uns 40 min, saímos do bosque e começamos a percorrer uma trilha sinalizada entre as rochas vulcânicas. Esta parte ainda é plana e passamos por alguns riachos de coloração marrom, tornando a água ruim por estar muito misturada com a terra.

Mais uma hora percorrida e a inclinação da trilha começa a acentuar-se. Tem muita pedra solta no caminho e após uma hora e meia, entramos na Espina de Pescado, uma crista vulcânica de não mais que 1,5 metros de largura que cai para os dois lados. Andamos em torno de 1 hora nesta crista e quebramos à direita no Camino de Mulas.

 

 

 

Começamos a ganhar altitude descortinando em nossas costas o Lago Tromen e à nossa direita a fronteira com o Chile. A subida até o refúgio militar novo demora mais umas 3 ou 4 horas. O impressionante é que a distância percorrida não é muita, o que cansa é a subida que não dá trégua.

 

 

Um pouco antes do refúgio chegamos na primeira placa de gelo. Coletamos, raspando a garrafa no gelo e misturando com um pouco de água.

 

 

Depois disso mais um hora e chegamos no refúgio militar novo. Descansamos cerca de vinte minutos nesta base, o visual já é magnífico e podemos avistar as formações chilenas, inclusive o vulcão Vilarrica.

 

 

Após um descanso de vinte minutos, voltamos a subir e passamos por um dos últimos pontos de gelo ainda bom para se beber.  O gelo que fica depositado mais perto do topo do vulcão conta ainda com um pouco de ácidos das últimas erupções.

 

 

 

Passamos uma grande placa de gelo e dobrando pela esquerda contornamos a formação rochosa e chegamos no refúgio militar velho.

 

 

São mais ou menos 5 horas da tarde e ficaremos até as 3 horas da manhã, para iniciarmos a segunda parte da ascensão. Ficamos descansando e contemplando o visual do refúgio.

 

 

Após umas 4 ou 5 horas de um sono leve, o grupo acorda com a montanha serena. Impressionante a quietude do lugar.

 

 

 

O grupo é grande e demora mais de uma hora para ficar pronto para partir. A 30 metros do refúgio colocamos os crampons e iniciamos a subida com head lamps, passando por cima de algumas gretas que impressionam.

 

 

 

A subida é contínua e o grupo sobe lentamente, passsando às vezes por alguns pequenos trechos de rocha, tomando cuidado para não amassar os crampons. Depois de umas 2 horas o sol começa a aparecer e descortina uma vista alucinante para todos.

 

 

 

Temos ainda varias horas até o cume. A subida começa a ficar cada vez mais inclinada, o gelo ainda é mais sólido nas primeiras horas da manhã e aos poucos vamos ganhando altura passando dos 3000m.

Uma formação de nuvens aparece no topo. Soubemos mais tarde que a família de guias tinha subido seis vezes até o refúgio e descido justamente por causa do mau tempo.

É um ambiente tão gelado que não há muita sede. Chegamos na base da Canaleta de La Cumbre para iniciarmos a última parte até o pré-cumbre. Passamos por um árduo trecho de terra e pedra soltas, cada passada na terra solta é bem difícil.

 

 

 

Descansamos alguns minutos e iniciamos um zig-zag em uma grande canaleta de uns 45º, o mais fácil é subir pelo caminho que se forma com as pegadas, melhorando a segurança de todos. Tomando cuidado para que os crampons não se engatem, chegamos a uma das últimas formações de pedra, para fazer a ascensão final para o cume.

 

 

Pode se dizer que este último ponto é o mais difícil de toda a subida.

Passamos por algumas paredes de gelo, buscando as escadas naturais de gelo. Alguns lances exigem bastante cuidado e paciência para se descobrir as melhores passagens. O uso do piolet é essencial para se ter equilíbrio. Após uns 40 minutos chegamos no pré-topo, aos desavisados a vontade é seguir direto para o alto, mas uma greta escondida de gelo nos obriga contornar o ultimo morro pela esquerda.

Chegamos no topo do Vulcão Lanín cerca de uma da tarde. Foram quase nove horas de subida direto desde o refúgio.

 

 

 

O visual 360˚ compensa qualquer esforço, impressionante a conquista de uma montanha de gelo. A parede sul cai vertiginosamente em nossa frente. Vemos cerca de 4 ou 5 vulcões em nosso entorno, entre eles o Tronador na região de Bariloche e o Villarrica em Pucón.

 

 

Passamos cerca de meia hora no topo e a sensação da longa volta até o refugio e depois para o estacionamento, veio à tona.

A volta até o carro demorou mais umas dez horas de caminhada. A descida no gelo nos trouxe outra dificuldade, tomar cuidado para não escorregar e sair rolando pra baixo.

 

 

Logo no início da descida um dos guias, Sebastian, escorregou ao ajudar uma menina e rolou uns 4 metros pra baixo, caindo em cima do Cox e de mais um dos caras. Sorte que nada de sério aconteceu, apenas uma lesão no joelho, para assustar.

Mais abaixo as nuvens chegaram derrubando a temperatura uns 5˚ e mostrando que uma tempestade de neve e vento podem transformar tudo numa grande roubada.

Ainda bem que o tempo melhorou e podemos como brasileros que não têm neve, descer a montanha como crianças, nas partes tranqüilas da descida. A parte final das gretas até o refúgio exigiu bastante cuidado. Uma das mulheres passou mal com a subida e ficamos umas 3 horas esperando ver o que os guias iam fazer.

No final ela acabou caminhando e conseguimos chegar no estacionamento quase 11:00 hs da noite. Foram dezenove horas de caminhada. Um esforço físico impressionante.

 

 

Agora radical mesmo foi chegar na cidade quase 1 da manhã com muita fome, pouca grana e ter que tomar uma ducha gelada no camping, e sair andando a procura de rango.

Nada como o conforto! Hehehe

Basta voltar para o cotidiano, que a vontade de voltar para alguma montanha surge no espírito novamente.

 

 


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