Relatos

Cicloturismo 2005 - Recife à Natal por Danilo Henrique Kleine

Cicloturismo 2005 – Recife à Natal

 

Ciclistas:

Danilo Henrique Kleine

Vladimir Holmo

 

 

Praias exuberantes, paisagens magníficas, sol forte, contrastes sociais, cultura, traços históricos da colonização portuguesa e invasão holandesa,  persistência e desafio, assim foi a viagem de 340km de bicicleta por três estados no Nordeste Brasileiro, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

 

06/02/05 – Domingo - Ida

 

Partimos do Aeroporto Internacional de Guarulhos GRU com destino a Recife voando pela BRA com escalas em Petrolina e João Pessoa.

Chegando em Recife tivemos o apoio da amiga do Vladimir Telma Junglas que nos guiou por toda Recife. Nos hospedamos no Boa Viagem Praia Hotel. Após acomodarmos as bagagens, fomos conhecer o Recife Antigo - onde o Carnaval Multi Cultural transbordava a alegria do carnaval participativo, misto de todos os ritmos: eletrônico, reggae, hip-hop, rock, maracatu, etc... De quebra pegamos o show do Lenine. Conhecemos o Bar Burburinho – local de encontro de gente “cabeça”, lá, ficamos lado a lado do Otto e da Alessandra Negrini. No fim da noite, comemos um acarajé e fomos descansar.

 

 

07/02/05 - Segunda-feira - Carnaval

 

Cansados da noitada? Nem pensar. Fomos à praia de Boa Viagem, onde se iniciou o processo de tirar o branco vela paulistano.

 

Recife se mostrou uma cidade extremamente bonita. A orla de Boa Viagem é muita bem estruturada, mas é preciso estar atento, pois há placas indicando a presença de tubarões. Os surfistas e os nadadores não devem passar os arrecifes.

 

 

À noite voltamos ao Recife Antigo, gostaríamos de ver a apresentação afro-religiosa e cultural da Noite dos Tambores Silenciosos, mas em meio aos blocos e maracatus abdicamos da apresentação que dizem ser a maior atração da segunda-feira de carnaval de Recife, para quem sabe voltarmos no próximo ano.

 

 

08/02/05 - Terça-feira - Carnaval

 

Acordamos cedo e partimos para Porto de Galinhas, onde curtimos a praia o dia inteiro em Maracaípe, graças ao apoio das amigas pernambucanas Katlin, Telma e Jussara que nos deram uma carona esperta. Porto é sem dúvida, a melhor praia do litoral sul de Pernambuco e é possível praticar vários esportes.

 

 

 

 

09/02/05 - Quarta-feira - 73km

 

Começamos os preparativos para a viagem, montagem das bikes e bagageiros na garagem do hotel.

Iniciamos a pedalada na praia de Boa Viagem em Recife. Quando estávamos chegando em Olinda pegamos uma baita chuva, paramos um pouco embaixo de uma ponte, mas decidimos continuar, até parece que paulista tem medo de chuva! Olinda estava um inferno. Inacreditável, a quantidade de pessoas indo para o último dia de carnaval. Passamos batido pelo agito, o engraçado e que todas as ruas empoçavam muita água por causa da chuva.

Seguimos pela orla de Olinda, pelas praias de Bairro Novo, Casa Calada, Rio Doce e Janga. Acessamos a estrada paralela à praia e visitamos a Igreja Nossa Senhora do Ó, onde uma senhora nos informou para ficarmos atentos com malandros e assaltos, fomos embora e chegamos à praia de Maria Farinha, onde atravessamos de barco a remo.

 

 

Seguimos pela estrada erroneamente e fomos parar em Igarassú, por isso pegamos um pequeno trecho da BR-101 e depois a estrada para Itamaracá, esse trajeto acrescentou 21km.

 

 

 

10/02/05 - Quinta-feira – 28km

 

Acordamos, tomamos café e fomos visitar o Forte Orange - um marco histórico belíssimo da invasão holandesa no Brasil.

 

 

 

Quando fui pegar minha bike para ir embora o pneu traseiro estava no chão, fomos empurrando até o Projeto Peixe-Boi do IBAMA, bem na frente providenciei o remendo, o problema era que a válvula também deu pane, como seria uma visita rápida largamos as bagagens no hotel e o improvável aconteceu, visitamos o Projeto Peixe-Boi que fez a reintegração desse mamífero à natureza.

 

 

Saímos e pegamos uma Kombi por 5km até uma bicicletaria onde comprei outra câmara de ar. De volta à estrada, pegamos as bagagens e almoçamos, havíamos perdido muito tempo devido aos contratempos, pedalamos até Jaguaribe onde atravessamos o canal de barco a remo, novamente e seguimos por uma estrada de areia pela beira da praia até o Pontal da Ilha - praia muito bonita.

 

 

Para atravessar para barra do Catuama pelo canal de Santa Cruz passando a frente da ilha do Celeiro é necessário improvisar uma bandeira branca para que os barqueiros venham fazer a travessia, quando chegaram percebemos que iria ser uma grande roubada, imaginem os 3 Patetas, 2 bikes, várias caixas de isopor, 2 ciclistas, 1 vela de saco de farinha costurado, tudo isso com vento forte e mar bravio, a todo instante aquele pensamento “vai virar”, quase batemos nas pedras da margens da Ilha do Celeiro, quando um dos barqueiros acho que o Moe deixou a vela tombar e caiu na água derrubando uma caixa de isopor, conseguimos chegar do outro lado sem tombar Graças à Deus, o derretimento de chocolate foi muito forte!

 

 

Do outro lado já escurecendo, pois perdêramos 01h00 aguardando o barco e mais outra de tortura na travessia, prosseguimos até Ponta de Pedras, seguindo conselho de velhos moradores ficamos por lá mesmo, pois segundo eles não acharíamos pousada em Carne de Vaca, outra praia.

Quando chegamos na Pousada Sayonara a proprietária falou que tivemos sorte, pois na Ilha de Itamaracá existem presídios de regime semi-aberto com grande incidência de roubos.

 

 

11/02/05 - Sexta-feira – 56km

 

Partimos de Ponta de Pedras, onde rapidamente alcançamos a praia de Carne de Vaca. Atravessamos para Acaú num barco decente, com esta travessia ultrapassamos a divisa entre Pernambuco e Paraíba.

 

 

Na saída de Acaú pegamos a estrada PB 044 erroneamente, pois havia uma estrada paralela a praia até Pitimbú, a essa altura o sol estava muito forte, paramos para tomar água de coco que estava quente e comer umas mangabas, a estrada era um constante sobe e desce, onde nas subidas íamos a 6 km/h e nas descidas de 50 km/h a 60 km/h, essa característica atrapalhou muito nosso rendimento, paramos na praia Bela, praia que faz jus ao nome com falésias e um rio desembocando na praia, ficamos por lá para fugir do sol do meio dia. Começamos a ter desarranjos intestinais. O Morcego toda hora louco para ir ao banheiro, mas que banheiro?

Continuamos passando pelas praias de Tambaba onde se pratica o Naturismo, Coqueirinho e Tabatinga.

O esforço físico nesse dia foi muito grande, sol muito forte, sobe e desce, vento contra e dor de barriga, pernoitamos em Jacumã (Paraíba) na Pousada Beija Flor, o Morcego teve febre alta durante toda à noite.

 

 

12/02/05 – Sábado – Descanso forçado

 

Ficamos em Jacumã. O Morcego teve diarréia e febre à noite inteira, acordou muito mal, fiz soro caseiro para ele tomar durante todo o dia, estava muito quente até a hora do almoço ele não melhorou, fomos até o Posto de Saúde de Jacumã, ele foi atendido por um médico muito figura acho que era Paraguaio, no fim das contas ele teve que tomar soro na veia e ficar em repouso no Posto de Saúde, compramos Pedyalite para a reidratação completa.

Enquanto o Morcego estava de repouso visitei a praia de Jacumã fazendo uma caminhada de ponta a ponta até a pedra furada.

 

 

13/02/05 – Domingo – 30km

 

Acordamos, o Morcego havia melhorado um pouco e decidimos partir para João Pessoa bem devagar, era visível como o nosso amigo estava debilitado.

Vimos uma cobra coral atropelada por um carro na estrada.

 

 

Conhecemos a Ponta do Seixas o ponto mais oriental das Américas, a sua praia e o marco.

 

 

Após a descida da Ponta do Seixas tivemos uma vista magnífica da orla de João Pessoa, com um mar verde. Nos hospedamos na pousada do Caju e fomos conhecer o centro histórico de João Pessoa, casa da Pólvora, Igreja de São Francisco, etc...

 

 

As ruas estavam desertas, pegamos um táxi para a praia do Jacaré ponto onde as pessoas de reúnem para assistir o pôr-do-sol, sendo que alguns quiosques tocam Bolero de Ravel, muito bonito.

 

 

14/02/05 – Segunda-feira – 83km

 

Saímos de João Pessoa com destino à Cabedelo, rodamos por 25 km até a balsa de Cabedelo para atravessarmos até Lucena.  Engraçado foi a taxa R$ 0,70 por pessoa e mais R$ 0,70 por bike, fomos até Lucena por uma estrada de paralepípedo. A partir da Praia de Bonsucesso fomos pela areia, que beleza areia compactada e vento a favor, a nossa alegria durou pouco, pois batemos no rio Miriri, o canal era muito fundo, atravessei a nado e caminhei até encontrar uma mulher que realizaria a travessia, no entanto teríamos que caminhar por 200 metros pelas pedras até o ponto da travessia, detalhe as pedras possuíam uma espécie de ostra encrustada muito cortante, demos duas viagens uma com as bagagens e outra com a bike, o que cansou muito. Finalmente cruzamos o rio Miriri e continuamos pela praia até Campina onde tomamos a estrada da vila, o calor era muito intenso, atingimos a barra de Mamanguape onde se situa outro Projeto Peixe-Boi.

 

 

Para atravessar o rio Mamanguape tomamos um barco a vela uma facada R$ 30,00 até Coqueirinho, na travessia vimos milhares de águas vivas chamadas por eles de Cebolas do Mar, da praia de Coqueirinho fomos pela praia até a Baía de Traição aonde chegamos numa pequena vila urbanizada, tivemos algumas informações sobre um caminho de apenas 12km que alcançaria a Barra do Camaratuba, prosseguimos já era fim de tarde, após alguns quilômetros a estrada era de areia fofa avermelhada quase impossível de se pedalar, prosseguimos sempre pedindo informações, quando um motoqueiro nos avisou que a balsa para Barra do Camaratuba não funcionava mais naquele horário, então nos aconselhou a rumar para  Mataraca uns 16km da onde estávamos, prosseguimos a estrada tinha várias bifurcações e já havia anoitecido, quando percebemos estávamos completamente perdidos numa plantação de feijão e macaxeira, descemos até um pequeno povoado para pedir ajuda e acreditem as pessoas não saiam das casas de medo, gritávamos por favor nos ajudem e nada, voltamos subindo víamos bem ao longe as luzes de Mataraca, a essa altura o Morcego desesperado para sair dessa situação e eu quase apagando por falta de energias, pois só havíamos tomado café e não havia pontos confiáveis para nos alimentarmos no trajeto, a cada tentativa nos perdíamos mais, falei para o Morcego para dormirmos ao relento, pois o céu estava muito estrelado, o mesmo não acreditava e questionava para o perigo de bichos, bandidos e algum maluco nos atropelar se dormíssemos no chão, continuamos e eu cada vez mais fraco empurrando a bike, quando me lembrei do caminho até um cruzeiro numa bifurcação que passáramos, coloquei um objetivo de chegar até aquele cruzeiro, andamos por uns 3km eu mais parecendo um zumbi, encostamos as bikes no cruzeiro quando me lembrei de um pedaço de miojo crú, comi e capotei num degrau de concreto do cruzeiro já era 21h30, acordei uma hora depois com frio e procurei um local melhor quando achei na beira da estrada uns postes quadrados deitados, que beleza.

 

 

Foi em cima deles que dormimos, segundo o Morcego até ronquei, os pernilongos me destruíram, o Morcego não conseguiu dormir direito pois estava encanado, com toda essa situação extrema. Uma coisa boa, o céu estava lindo. Durante à noite passaram três  carros em velocidade, resolvemos ficar em silêncio, pois não sabíamos se eles eram bandidos ou se eles achariam que nós é que éramos os bandidos. 

 

 

15/02/05 – Terça – 14km + Buggy

 

Amanheceu às 05h10min realmente na Paraíba o céu nasce mais cedo, prosseguimos e finalmente achamos uma pessoa que nos explicou o caminho, uma quebrada muito difícil de achar por causa da areia, impossível de pedalar empurramos as bikes por 3km, no meio do caminho parei num rio para dar uma refrescada e apareceram alguns macacos na mata brincando nas árvores, até chegar em 3 ocas onde é realizada a travessia, só se via mato e o canal, sai a nado do outro lado vi uma pequena balsa e várias jangadinhas, todas estavam acorrentadas, tive andar pela praia onde achei um pescador que nos ajudou por R$ 5,00 com uma jangadinha de 3X1, 5 metros, colocamos a tralha em cima e puxamos a nado as coisas até o outro lado. Finalmente, chegamos à Barra do Camaratuba, onde compramos alguma coisa para comer num mercadinho e dormimos por três horas num quarto que parecia uma sauna.

Ao meio dia continuamos praia de areia fofa e vento contra, tivemos que empurrar as bikes por 8km até Guajú onde cruzamos um rio com as bikes nas costas chegando a Sagi, com essa travessia chegamos ao Rio Grande do Norte, o Morcego já não agüentava mais quando avistou uns buggys, fretamos um buggy até a Praia de Pipa passando pela Baía Formosa e Barra do Cunhaú, transpondo um enorme trecho de areia fofa, no caminho vimos duas tartarugas mortas sendo devoradas por urubus.

O Buggy desenvolvia uma ótima velocidade, quando chegamos no chapadão em cima das falésias tivemos uma visão estonteante, sem palavras, chegamos em Pipa, ao entardecer.

 

 

16/02/05 - Quarta-feira – descanso

 

À noite jantamos no Doors, ótima comida, ótimo som e preços acessíveis.

Na volta para a pousada o Morcego inventou de comermos uma sobremesa, uma mulher bateu uma vitamina de Guaraná da Amazônia, resultado não conseguíamos dormir, ansiedade absurda, diarréia e taquicardia, como é forte, pensamos que ela havia colocado alguma droga na bebida!

 

 

 

17/02/05 – Quinta -feira - 51km

 

Saímos de Pipa às 13h00, eu ainda estava com taquicardia do Guaraná da Amazônia. Pedalamos 8km até a balsa de Tibau do Sul, estrada alucinante por cima das falésias asfaltada e vento a favor, após a balsa pedalamos pela areia até Barreta, vimos mais uma tartaruga morta no caminho. Em Barreta, pegamos uma estrada asfaltada passando por Camurupim, Tabatinga, Mirante dos Golfinhos, Búzios até Pirangi onde conhecemos o maior Cajueiro do mundo.

 

 

 

 

Prosseguimos passando pela Barreira do Inferno, área militar de lançamento de foguetes, aonde após alguns quilômetros chegamos à Natal com o sol se pondo, nos hospedamos na praia de Ponta Negra onde se encontra o cartão postal de Natal o Morro do Careca.

 

 

18/02/05 – Sexta –feira – City Tour

 

Fizemos um city tour pela cidade até acharmos uma bicicletaria para embalarmos as bikes.

 

 

 

 

19/02/05 – Sábado – Descanso

 

Passeio de Buggy com emoção em Genipabu, Pitangui, Jacumã e Muriú, andamos no Skibunda e no Aerobunda em Jacumã, um belo divertimento.

 

 

 

 

20/02/05 – Domingo – Retorno

 

Compramos algumas lembranças e visitamos o Forte dos Reis Magos ao entardecer fomos para o Aeroporto onde retornamos para São Paulo.

 

 

 

 

 

Acontecimentos imprevistos:

 

- Insolação Vladimir

- 4 pneus furados bike Danilo

- Efeito Colateral Guaraná da Amazônia

- Perdidos perto de Mataraca

 

 

 

Dicas importantes:

 

- Filtre bem as informações, somente ciclistas fornecem dados corretos sobre tipo de terreno, quilometragem e tempo de percurso.

- Fique esperto com a alimentação nas praias mais afastadas da Paraíba.

- Leve alimento tipo Power Bar, pois há trechos sem infra-estrutura para uma alimentação adequada.

- Use pneus lisos.

 

 

 

Apoio

 

Telma, Katlin e Jussara do SEBRAE

Hotel Panorama (Natal)

Natal Trip

Optical

Chinelar

Peski-Legal

 

 


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