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Conquista do Baú por Marcello C. Vazzoler

A Pedra do Baú

 

            Lembro-me como se fosse ontem, da primeira vez em que subi a Pedra do Baú, eu, meu irmão Marcilio e Herbert, um amigo de longa data, éramos adolescentes em busca de aventura e tivemos conhecimento de tal  monolito rochoso por conta de matéria escrita em uma revista, cuja descrição da empreitada na época, dizia ser um desafio para os mais corajosos e decididos, tínhamos pouca experiência em excursionismo, muito menos em altura, mas mesmo assim nos achávamos capazes. A nossa primeira subida na pedra foi precedida pela de um grupo de escoteiros, havia um líder, e este  discursava sobre os enormes perigos de se subir tal paredão,  na época já havia as escadinhas de ferros chumbadas na pedra, mas as pessoas  que subiam por tal escadinha não usavam nenhum equipamento de segurança, tanto por desconhecimento quanto por não acharem necessário.

            O tempo passou e eu comecei a escalar de uma forma um pouco mais técnica, com corda,  mosquetões e sapatilha, desde essa época venho freqüentando sempre que posso o conjunto, Baú, Bauzinho e Ana Chata, e para mim a história da Conquista do Baú, bem como a preservação do ecossistema local são de extrema importância. O complexo Baú constitui-se hoje em dia em um dos principais pólos de escalada de São Paulo e por que não dizer do Brasil.               

        

 

A Conquista da Pedra do Baú

 

 

A história da conquista

 

          O ano era 1940 e a conquista ao topo do imponente Baú, que a despeito do nome chama-se assim, por ser uma abreviação de Embáu que em tupi-guarani significa local de vigia  com 1950 metros de altitude e paredes de granito com até 360 metros de altura se tornava um tormento para um pacato cidadão de São Bento do Sapucaí de nome Antônio Teixeira de Souza, pedreiro de profissão ele não se conformava com o fato de que ninguém houvera subido a pedra, e mais, queria ser ele o primeiro a por os pés em seu cume. As tentativas foram muitas e em algumas delas teve que ser resgatado por amigos, pois se embrenhava de tal forma em suas escarpas que depois não conseguia descer, porém na noite do dia 12  de agosto de 1940 Antônio que já contava com 51 anos de idade teve um sonho, no qual fora revelado a ele que a face sul do lado de Campos do Jordão é a que deveria ser galgada pela primeira vez. Levantou-se de madrugada ainda meio confuso com o sonho que tivera, e pôs-se a arrumar seu material de conquista, (martelo, uma pequena foice e três metros de corda). Sem perder tempo Antônio descreveu seu sonho ao irmão João também entusiasta da subida, e os dois partiram ainda de madrugada com o precário equipamento que ainda hoje provoca  reações de pavor e respeito, foram eles intrépidos e confiantes. A escalada se mostrou mais complicada do que se imaginava, pois além das dificuldades técnicas a quantidade de vegetação presa à parede  dificultava  muito o progresso, e dava uma falsa sensação de que poderiam se agarrar com firmeza, no final de um dia de muita luta conseguiram realizar o maior sonho de Antônio e um verdadeiro marco na História do montanhismo nacional. E assim escreveu em seu diário: “A escalada da pedra do Baú oferece inúmeros perigos, pois possui trechos quase intransponíveis de pedreiras e abismos profundos. A respeito desse titã de pedra interessantes lendas brotaram da imaginação fértil dos sertanejos que habitavam as suas vizinhanças. Conta uma delas, que bem no alto, no pico da pedra do Baú existe um grande lago onde nas noites de lua cheia Yara a mãe d’água vai banhar-se, tendo arrastado para o fundo das águas aqueles que, em tempos remotos, ousaram escalar a montanha. Outras histórias fabulosas transmitidas de gerações em gerações até os nossos dias são contadas, como a que diz que no topo da pedra do Baú assim como a maravilhosa”edelweiss” dos Alpes, um diamante existe, tão grande e brilhante que as crianças que se detivessem a admirar as suas cintilâncias um só instante não tardariam a ficar cegas. E com essas histórias em tempos idos as meigas e ingênuas mucamas e as velhas mães pretas, assombravam os filhos da Sinhá para fazê-los adormecer.

          Como várias pessoas duvidassem que os irmãos “Cortez” , como são mais conhecidos  os Teixeira, tivessem alcançado o pico da grande rocha, prontificaram-se eles a repetir a façanha no dia 19 do corrente.

         Efetivamente nesse dia mais de trezentas pessoas, entre as quais as autoridades de São Bento do Sapucaí, dirigiram-se ao maciço existente ao lado da pedra do Baú (Ana Chata), também de considerável altura, mas cuja escalada acessível pode ser vencida sem dificuldades, afim de observarem desse ponto a repetição do feito audacioso dos irmãos Teixeira. Não faltou também a presença de uma banda de música. Do cimo da pedra essas pessoas observavam com ansiosa expectativa, o aparecimento dos arrojados jovens na pedra do Bahú, servindo-se dos bons ventos  os irmãos Cortez apareceram no ponto culminante da montanha hasteando a bandeira brasileira, enquanto no segundo plano ao som do hino nacional, a multidão de curiosos prorrompia em ensurdecedoras aclamações aos alpinistas. (19 de agosto de 1940 - Diário de Antônio Cortez)”. 

            Antônio sem se dar conta abriu caminho por uma rota  que após cinco anos fora acrescida de degraus metálicos e cabos de aço em seus trechos mais verticais para servirem de acesso comum aos moradores mais valentes daquelas paragens. O sonho ainda não estava completo Antônio achava que deveria ter uma escada na parede que ficava de fronte à sua cidade e após algum tempo da construção da primeira, recebeu permissão e apoio financeiro daquele que era dono dessas terras e muito seu amigo o Empresário Luiz Dummont Villares. Do término da construção das escadas para a construção de um refúgio que foi o primeiro do Brasil construído nos moldes europeus, não se deu muito tempo, o que se sabe, porém é que o refúgio era construído de madeira levada lá para cima com muito custo, e era provido de captador de água externo, beliches, lareira e até um sino de bronze, tudo feito com muito capricho coroado por um erro fatal: não havia supervisão constante, portanto o que antes era um belíssimo ponto de pernoite foi aos poucos virando lenha para a fogueira dos mais inescrupulosos vândalos que por ali passaram. E hoje em dia o piso dessa construção é a única coisa que restou para a lembrança desse tempo. 

 

Fotos

 

  



     

                                                

 

 

  

O Baú nos dias de hoje

 

 

Escaladas e Caminhadas

      

          Fazem mais de sessenta anos da conquista e hoje em dia o complexo da  Pedra do Baú (Baú, Ana Chata e Bauzinho) como já foi dito anteriormente, constitui-se em um dos principais pólos do excursionismo e escalada paulista e um dos mais importantes do Brasil, além de seus dois acessos por escadas recém reformadas, conta com inúmeras vias de escaladas em granito dos mais variados graus de dificuldade além do que duas grandes vias que podem exigir do escalador uma pernoite na parede. As escaladas técnicas começaram a ser praticadas nessas pedras na década de setenta, sendo que as vias mais antigas são também algumas das mais freqüentadas por escaladores, no Baú a via “Normal  ou com a variante Cresta” são as mais freqüentadas, já no Bauzinho a “Normal da face norte e a Tudo Bem da face sul”, e na Ana Chata a “via dos Lixeiros” que era considerada a mais longa de todo o conjunto na época.  

          As técnicas utilizadas para escalada podem variar do livre: modalidade em que o escalador utiliza o equipamento somente para sua segurança em caso de queda, ao artificial: modalidade em que a utilização de estribos(escadinhas) é fundamental para a progressão do escalador, pois se subentende que a parede não possui bons pontos de apoio para progressão natural.                       

            O importante é que o escalador que para lá se dirija saiba corretamente as técnicas de segurança, bem como de manuseio de equipamentos (vide box de serviços), além de informar-se a respeito da via que ira escalar, para tanto recomendamos a aquisição do “Manual de Escaladas da Pedra do Baú” por Eliseu Frechou (vide box de serviços), que contém todas as informações necessárias para entrar nas diversas vias desse conjunto.

             Subir a pedra do Baú e pernoitar em seu cume com tempo bom, constitui-se em uma experiência única e também um clássico passeio de caminhada nessa região da Mantiqueira, nesse sentido a melhor opção é ir por São Bento do Sapucaí, pacata cidadezinha alcançada por ônibus diário saindo da rodoviária do Tietê em São Paulo.

 

Cuidados e dicas para integrar-se ao meio ambiente local

 

           - A região ao redor do Baú, numa distância de quatro quilômetros a partir de sua base, é área de proteção ambiental desde 1987 de acordo com a lei municipal (numero 548), porém não existe nenhum tipo de fiscalização que barre a entrada do visitante.

           - Pela existência de moradores dentro deste perímetro é muito importante que ao passar por porteiras  feche-as como antes para que os animais de criação não escapem.

           - Leve todo o lixo de volta para a cidade, isto inclui bitucas de cigarro. Não utilizar nenhum produto de limpeza tipo detergente, sabonete ou shampoo nas bicas que encontrar pelo caminho pois a mesma água que você utilizar, uma outra pessoa que estiver em um desnível inferior pode também usar.  

           - Não faça barulho demasiado para não afugentar os poucos animais silvestres que ainda existem, e por vezes aparecem.

            

 

   

O que levar e cuidados especiais

 

       - Neste tipo de passeio é importante estar bem equipado, isto inclui tênis ou botas adequadas e previamente amaciadas; uma boa mochila resistente à abrasão, confortável e se tiver barrigueira para concentrar mais peso na cintura e não nos ombros, melhor; uma capa de chuva; lanterna com pilhas reservas; um canivete; e alimentos energéticos de fácil preparo.

          - Para quem pretende pernoitar no topo a melhor época do ano é o inverno e deve-se levar um sleeping de pelo menos -5 graus. Além é claro de equipamentos específicos para camping. 

           - Suba o Baú de preferência com quem já conhece e se possível utilizando equipamento de segurança individual (cadeirinha de escalada, 2 pedaços de corda dinâmica de escalada de aproximadamente 1 metro cada e dois mosquetões de duralumínio para 2200kg). Informe-se com instrutores de escalada como se deve utilizar este material.(Vide box de serviços).

            

    

 

Acesso ao Conjunto

 

 

Por Carro

 

         O acesso por carro à Pedra do Baú tem inicio a partir de Campos do Jordão, 24Km, começando em Jaguaribe e seguindo pela avenida Atalaia. O trajeto é bastante conhecido por moradores da região, portanto não haverá problemas quanto a informações. Os últimos 13Km da estrada não estão asfaltados, e o final dessa estrada de terra se dá em uma pequena clareira, a partir daí tem inicio duas trilhas, uma que sobe em direção a crista, a qual após 10 minutos nos leva ao topo do Bauzinho, onde deparamos com um visual realmente incrível das escarpas do Baú, e outra que desce e contorna o Bauzinho e o Baú até a escadinha do lado de Campos, levando pouco mais de meia hora.

  

 

Por Ônibus

 

       A Viação Mantiqueira têm ônibus para Paraisópolis que faz parada em São Bento do Sapucaí com saídas às 6h30, 13h e 18h30. Partindo do terminal rodoviário do Tietê. Em aproximadamente 3 horas de viagem chega-se à rodoviária de São Bento do Sapucaí, informe-se sobre a estradinha de acesso ao Acampamento Educacional Paiol Grande. Na altura do quilometro 4 dessa estrada sai uma trilha que segue por dois quilômetros e meio de subida íngreme até um trevo com pequena bica d’água, onde a primeira trilha a direita nos leva até a Ana Chata, a do meio contorna o Baú e nos leva até a escadinha de Campos, e a da esquerda nos leva até a escadinha de São Bento do Sapucaí.         

 

 

 

Box de Serviços

 Cursos de Escalada em Rocha

 

 - VERTICAL RADICAL

   Cursos básicos, avançados e para crianças

   Bip- 5188-3838  Cod. 23841

   Fone/fax - (011) 4997-5737

   Celular : 9224-4043  

 

- MONTANHISMUS

 Cursos básicos, avançados e big wall

  Fone/fax - (012) 371-1470 

 

 

Roteiros de Caminhadas e Escaladas da Região

 

 

- SÉRGIO BECK

  Fone - (011) 571-7928

 

 

 

 

Marcello Cyrillo Vazzoler
Formado em Educação Física, cursou Fisiologia do Exercício na E.P.M. - Escola Paulista de Medicina. Escala montanhas desde 1985, é praticante de mountain bike, trekking e corridas de fundo e meio fundo. Em 1989, fundou a "Vertical Radical - Escola de Escalada em Rocha", e atua até hoje ministrando cursos de escalada em rocha e técnicas verticais. Foi pioneiro no desenvolvimento de Treinamento para Escalada Esportiva no Brasil, e desenvolveu atividades em montanha e trabalhou como guia na Patagônia Argentina, Chilena e Terra do Fogo. Escalou e trabalhou como instrutor auxiliar no curso de Escalada em Gelo e Alta Montanha nos Andes Bolivianos. Atua também como Coordenador Técnico de treinamento na área de trabalho e resgate em altura em ambiente industrial na Vertical Pro. 

Email para contato: verticalradical@hotmail.com

Tel.: 011 5589-8559


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